O desconfiômetro brasileiro
Paris

A mala tá quase pronta (por algum milagre inexplicável), então saí em busca do meu cartão de memória que eu, como todo bom brasileiro, deixei pra comprar no último dia. O destino era a rua Montgallet, aquela que não aceitava o meu cartão de crédito quando fui da primeira vez. Por garantia, fui levando mais dinheiro.
Logo na frente da catraca, encontrei uma francesa que devia ter a minha idade. Ela parecia agoniada, como quem procura alguma coisa. Quando passei por perto, ela falou comigo, perguntando alguma coisa. Como ela tinha falado muito rápido, fiquei olhando com aquela cara de “hein?” pra ela.
- É que eu bla bla bla carteira bla bla bla.
- Er… hã?
- Você entende francês?
- Sim.
- Eu não consigo encontrar minha carteira.
- Certo.
- Er… bla bla bla atrasada bla bla bla catraca.
- Hum… você quer passar junto comigo na catraca?
- Isso! Você se importa?
- Não, não, vamo lá.
E passei junto com ela. Ela agradeceu e seguiu o caminho dela. Eu tava até feliz de ter feito uma boa ação, embora ela incluísse dar um jeitinho brasileiro pra sacanear o sistema. Só que bateu aquela velha desconfiança, também brasileira: dizem que os batedores de carteira europeus são profissionais. Basta encostarem em você, e você nem nota que seus pertences foram embora.
Botei a mão num bolso, a carteira tava lá. Botei a mão no outro, os celulares tavam lá. Botei a mão pra tras, pra ver se a bolsa tava aberta, mas não tava. Alarme falso. Ela devia estar falando a verdade mesmo. Às vezes eu esqueço que eu vim pro primeiro mundo.


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